Sínodo da Pan-Amazônia (Parte 2)

2019-11-18---Blog---Texto-Zelia-capa

No último mês de outubro, de 6 a 27, mais de 250 integrantes da Igreja Católica, além de habitantes dos nove países que abrigam a Floresta Amazônica, estiveram reunidos no Vaticano para o Sínodo dos Bispos para a região da Pan-Amazônia.

Acredito que vale a pena olhar com atenção o logotipo, em forma de folha, criado pelo artista brasileiro Aurélio Fred para simbolizar e sintetizar os objetivos e espírito do Sínodo. A Folha, que aponta para a extraordinária biodiversidade da Região Amazônica, traz no seu traçado a trama de uma cesta indígena para recordar a cultura, a força e o trabalho das populações tradicionais. O movimento da Folha, sugerindo o de uma chama (fogo), simboliza a presença do Espírito Santo na Igreja e na Amazônia. A unidade da Pan-Amazônia está representada nas cores (não há uma cor que prevaleça sobre a outra) das bandeiras dos nove países que abrigam a Floresta. No centro, o rio (com seus afluentes e bacias) que une toda a região é símbolo da unidade dessa porção de terra e também do caminho a ser percorrido pelo Sínodo: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Esse caminho passa pela Cruz, nossa identidade de Igreja e de cristãos.

A realidade Pan-Amazônica é complexa e envolve vários aspectos, todos eles interligados. Por isso, ao falar da preservação e evangelização da Amazônia, o Papa Francisco refere-se a uma “ecologia integral”. Isso é, uma ecologia que, além do ambiente, abrange os seres humanos com suas questões econômica, social, cultural e espiritual. Para que o Documento de Trabalho do Sínodo refletisse a realidade da região e fosse o rosto dos povos da Amazônia, ao longo de dois anos, a Igreja ouviu a voz das populações da Floresta, registrou seus desafios e dificuldades, reuniu sugestões e escutou atentamente suas esperanças.

A Igreja não tem a pretensão de ocupar o lugar do Estado, a quem cabe formular e promover os meios de desenvolvimento econômico para a região. Ela respeita a autonomia de todos os países assim como quer que a sua seja respeitada. O objetivo principal desse Sínodo é planejar novos caminhos para a evangelização das populações pan-amazônicas, especialmente dos indígenas (frequentemente a porção do povo de Deus mais esquecida). Porque tem consciência que o homem não é só corpo nem só alma, mas corpo e alma numa unidade substancial profunda, e de que o processo de evangelização abrange o homem na sua totalidade, a Igreja tem o dever de denunciar os projetos que alimentam a exploração desenfreada, a extração de minérios em terras indígenas, a exploração e destruição dos recursos naturais, todos os abusos enfim cometidos contra a dignidade dos povos da Floresta (castanheiros, seringueiros, pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos etc.) que necessitam das matas e dos rios para sobreviver. Ceder à tentação de não ver, não ouvir e não falar constitui um grave pecado de omissão.

O Sínodo convocado pela Igreja não é ideológico nem político, mas pastoral. A Igreja foi enviada ao mundo por Jesus para anunciar a Boa Nova do Evangelho a todas as criaturas: “Ide e evangelizai”. O desafio é enorme porque as dificuldades são muitas. Lembro algumas delas: a vastidão do território, pouquíssimas estradas, populações vivendo em pequenas comunidades ao longo dos rios, indígenas vivendo em regiões internas de difícil acesso, dificuldade da língua, poucos sacerdotes e leigos etc. Mas Igreja e Missão são duas realidades inseparáveis. Uma Igreja que não está em contínuo estado de missão e em permanente posição de saída – para ir ao encontro de outros grupos pastoralmente mais abandonados – não é a Igreja de Jesus Cristo.

A fim de criar condições para um proveitoso diálogo e propor novas formas de evangelização, os organizadores do Sínodo procuraram inicialmente ouvir o povo da Floresta. Ouvir o povo sim, e deixar-se guiar pelo Espírito Santo (o verdadeiro protagonista do Sínodo), que inspira novos caminhos e novos jeitos de andar. Longe da Igreja a ideia de angariar adeptos apenas para encher suas igrejas e de repetir uma evangelização colonialista em que o indígena era visto como o alvo e objeto da missão. Trata-se não de uma evangelização impositiva, mas de propor Jesus Cristo Ressuscitado, respeitando a cultura do outro e deixando implícito que ele não precisa abandonar seus usos, costumes e tradições, desde que isso não seja contrário ao Evangelho. Trata-se, enfim, de motivar para a prática da justiça, para a convivência solidária, para o gesto fraterno, para sermos cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, nosso amigo e irmão.

 

Zélia Vianna

 

 

 

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