O Leigo na Família

2018-05-15---Blog---Texto-Zelia-capa

Do ponto de vista cristão, a família é anterior a qualquer sociedade vez que o Deus que criou o ser humano à sua imagem e semelhança é um Deus Família (Pai, Filho, Espírito Santo). A família é a parte principal da sociedade. Um mundo sem família é como uma casa sem alicerce ou uma planta sem raízes: qualquer oscilação ou vento um pouco mais forte poderá derrubá-la. Exatamente porque a família é uma criação de Deus e uma necessidade da sociedade, a Igreja no Brasil escolheu a Sagrada Família de Nazaré – formada pelos leigos Jesus, Maria e José – como símbolo do Ano do Laicato.

Convencidos de que os únicos responsáveis pela evangelização eram os bispos, padres e diáconos, lamentavelmente, os leigos se esqueceram de cuidar do mundo lá fora, e essa ideia foi uma verdadeira pedra de tropeço no processo de evangelização. O resultado foi deveras desastroso. Deixaram vazio o seu principal lugar de atuação e concorreram decisivamente para o crescimento de uma sociedade violenta, desigual, corrupta, injusta, cada vez mais distante da mensagem do Evangelho. Essa ideia clericalista, contudo, não desapareceu de todo e ainda permanece viva na cabeça de muitos.

É justo que os leigos colaborem e prestem serviços à comunidade eclesial da qual fazem parte, porém, sem jamais trair sua condição de discípulos missionários de Jesus nos ambientes onde moram, trabalham, divertem-se, passam enfim a maior parte de seu tempo. Esses ambientes sofrem a ausência de cristãos responsáveis e audaciosos, de leigos conscientes de sua condição de formadores de opinião e de construtores de uma sociedade afável, solidária e justa, conforme o sonho do Senhor.

De todos os ambientes a serem evangelizados destaco o da família, não apenas por ser a primeira sociedade que nos acolhe quando saímos do útero de nossa mãe e o lugar mais propício para o crescimento e transmissão da fé e dos valores humanos e cristãos, mas também porque uma sociedade justa e fraterna só será possível com a presença e decisiva contribuição das famílias. Cabe bem aqui a célebre sentença do grande jurista Rui Barbosa: “A Pátria é a família amplificada”.

Como o núcleo familiar é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da evangelização, fica evidente que só uma família evangelizada tem condições de ser evangelizadora. Por isso, o exemplo dos pais que vivem de acordo com as exigências do Evangelho, bem mais que palavras e conselhos, é testemunho fundamental para a formação da personalidade dos filhos, que, quando adultos, procuram agir conforme foram educados.

Não resta dúvida que o lar, que é o melhor lugar para se aprender a respeitar o outro, partilhar, conviver e aceitar as diferenças, está sendo bombardeado por todos os lados. Com a justificativa de que tudo é relativo e de que não há verdade absoluta, através de programas e novelas, a mídia propõe como válidos diversos e degradantes tipos de comportamento e relacionamento familiar. Por sua vez, a droga, o álcool, o consumismo, o endeusamento da beleza, a cultura do provisório, a desenfreada corrupção são males que cercam e atingem em cheio a família e promovem a sua desintegração.

Penso que não precisamos debruçar-nos sobre livros e tratados para compreender que a raiz de todos os problemas e crises está na ausência de Jesus Cristo na família, na ausência da oração e do estudo do Evangelho, o Livro que nunca envelhece e que contém lições de vida para todas as pessoas de todas épocas: reis, comerciantes, donas de casa, governantes, juízes, cidadãos comuns, crianças, jovens, oprimidos e injustiçados.

A cada dia torna-se mais urgente a necessidade de a família abrir-se para a comunidade eclesial e responder afirmativamente ao convite do Papa Francisco: “sair” de si para as realidades do mundo, ir ao encontro de outras famílias nas “periferias existenciais onde há sofrimento, solidão e degrado humano”. É uma proposta desafiadora principalmente porque, diferentemente do passado quando havia praticamente apenas um modelo tradicional de família, vários tipos de família estão surgindo. Diante dessa nova realidade, faz-se necessário não um novo Catecismo nem uma nova evangelização, porém um jeito novo de evangelizar, além de uma boa dose de alegria, coragem, iniciativa e criatividade.

Acreditemos que é possível transformar a sociedade a partir da conversão das famílias porque o trabalho é nosso, mas a conversão é obra de Jesus. E, se é obra d´Ele, nada e ninguém há que possa impedir sua realização.

Zélia Vianna

O Leigo na Família

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