O Leigo e o Imigrante

2018-10-15---Blog---Texto-Zelia

 

Embora a migração seja um fenômeno tão velho como o mundo, não há dúvida de que estamos vivendo um colossal processo de migração, isto é, o processo de entrada e saída de uma pessoa ou grupo de pessoas de uma região para outra. Seja por fome e desemprego, seja por guerras, conflitos étnicos e culturais, perseguição política ou religiosa ou simplesmente em busca de uma vida melhor, a pessoa ou grupo de pessoas que saem (ou emigram) de suas terras são vistos como imigrantes pela terra que os acolhe.

 

Para os que conhecem bem a Bíblia, a palavra migração é bastante familiar vez que a história do povo bíblico é uma história de deslocamentos constantes, a ponto de o povo hebreu ficar conhecido como “homem em marcha”. Através do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, sabemos que a História da Salvação começa com Abraão, que, chamado por Deus e já em idade bastante avançada, deixa sua casa em Ur, na Caldeia (atual Iraque), e vai para Canaã, onde passa a viver como imigrante (Gn 12,1-4). Entre 2000 e 1200 a.C., em virtude das secas, os hebreus se veem obrigados a buscar refúgio no Egito, onde viveram por cerca de 400 anos. Nesse país perdem tudo que tinham e tornam-se escravos do faraó (Ex.1). Para libertá-los da escravidão e trazê-los de volta a Canaã, Deus escolhe Moisés, um imigrante que vivia na terra de Madiã, para onde fugira a fim de escapar da perseguição do faraó.

 

Se a figura do imigrante é intensa e forte na Bíblia, infinitamente maior é o cuidado de Deus com o bem-estar desses atravessadores de fronteiras. Deus ama o estrangeiro, e acolher o refugiado faz parte do mandamento bíblico: “Ele faz justiça ao órfão e à viúva e ama o imigrante, dando-lhe pão e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito” (Dt 10,18-19). “Não explore um assalariado pobre e necessitado, seja ele um de seus irmãos ou imigrante que vive em sua terra, em sua cidade” (Dt 24,14).

 

No ano zero da nossa era, com o mistério da Encarnação, a história continua. O Filho de Deus sai de sua morada celeste e vem armar sua tenda entre nós. Ainda menino, para salvá-lo da fúria de Herodes, Jesus é levado para o Egito por seus pais Maria e José, e, nesse país, eles vivem alguns anos como imigrantes.

 

Ser imigrante faz parte do DNA dos cristãos. Pelo batismo assumimos a identidade de Jesus e tornamo-nos irmãos do Divino Imigrante. Assim como no passado, hoje também não temos aqui neste mundo morada permanente e assumimos com alegria o título de “peregrinos”.  Fazemos parte da Igreja Peregrina e nossa vocação é viver em constante estado de saída, a começar pela primeira e contínua mudança que é a de um coração de pedra num coração de carne.

 

Assim como a Sagrada Família para sobreviver dependeu da hospitalidade de estranhos no Egito, os imigrantes (e, nesse momento, lembro dos nossos irmãos venezuelanos) que buscam refúgio em nossa terra dependem de nós, anseiam por nossa acolhida, necessitam de nossa ajuda fraterna. O mínimo que podemos fazer é não os julgar, não os rotular, não os considerar indesejáveis, mas nos solidarizarmos com a dor dos que, ao atravessar nossas fronteiras, deixam para trás família, língua, amores, sonhos, uma história de vida.  Eles não chegam para roubar nossos empregos, nem para tirar o pão da boca de nossos filhos. Eles chegam sofridos, mas chegam para somar, como chegaram e somaram conosco portugueses, italianos, libaneses, alemães e outros imigrantes vindos de diversas partes do mundo. Eles chegam para que aprendamos a ser irmãos.

 

Logo no início do seu evangelho, Mateus apresenta Jesus como o “Mestre que veio realizar a justiça” e, no capítulo 25, ele narra a conhecidíssima parábola do Julgamento Final. Numa linguagem simbólica (vale a pena reler), em nenhum momento, Jesus diz aos que se encontram à sua esquerda que eles fizeram coisas más. Também não diz aos que estão à direita que a Justiça do Reino (salvação) se alcança pela obediência às regras e preceitos. Ele se identifica com todos os oprimidos, pobres e desprezados, e diz que receberão o Reino como herança aqueles que praticarem a justiça, isto é, aqueles que fizerem a vontade de Deus, acolhendo-O nos famintos, sedentos, doentes, nus, encarcerados e estrangeiros: “Tudo o que vocês fizerem ao menor de meus irmãos foi a mim que o fizeram” (Mt 25,40).

O Leigo e o Imigrante

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