O Leigo e o Dízimo

2018-07-15---Blog---Texto-Zelia-capa

Assim como no dia em que somos registrados no cartório civil passamos a constar da lista de cidadãos brasileiros, no dia em que somos batizados assumimos a condição de cristãos e somos inscritos nesta grande família de Deus na terra que é a Igreja. E é assim que vejo o dízimo: como um gesto fraterno, compromisso com a família eclesial, e não um contrato de pagamento ou mera arrecadação.

Infelizmente, ao longo do tempo, fomos perdendo o sentido de pertença à família biológica e à família de fé. Tal qual o filho que usufrui do que a família oferece, vive na casa não como irmão, mas como hóspede ou visita, não são poucos os que cumprem o preceito dominical, vão à missa, participam das diversas formas de culto, batizam os filhos, mas não querem ter vínculos maiores com a comunidade. A comunidade eclesial, antes referência maior da fé cristã, está sendo relegada a segundo plano e dando lugar a uma experiência pessoal de Deus.  Considero uma incoerência amar Cristo e não aceitar ser membro da comunidade eclesial; escutar Jesus, mas não escutar a Igreja que é o Seu prolongamento na terra. Esse jeito individualista de se relacionar com Deus foge inteiramente à minha concepção do que é ser cristão. Todos somos convocados, todos somos responsáveis, todos tomamos parte no jogo. Na Igreja, não há jogadores reservas, ninguém é batizado para ficar na arquibancada, ninguém age ou joga por si.

Pelo batismo somos convocados a participar de muitas maneiras dessa comunidade de fé, e uma dela é através do dízimo. Por isso, neste Ano Nacional do Laicato e neste mês de julho em que a Igreja dedica uma atenção especial ao dízimo, acredito que vale a pena recordar o significado e o valor dessa prática milenar.

Como batizada, sinto-me parte dessa comunidade de fé que é a Igreja e sinto muito forte em mim esse sentimento de pertença, essa alegria de ser membro desse Corpo Eclesial cuja cabeça é o Cristo. Vejo o ser dizimista como uma honra que Deus nos concede. Ser dizimista é ter a oportunidade de mostrar gratidão e DEVOLVER a Deus um pouco do muito que ele nos dá; é contribuir voluntariamente para a expansão do Seu Reino; é colaborar com a comunidade da qual fazemos parte. Dízimo, repito, não é arrecadação, não é filantropia, não é oferta. Dízimo é um gesto religioso movido pela gratidão a Deus, amor aos irmãos e obediência à missão que d’Ele recebemos através dos primeiros discípulos.

Embora tanto o dízimo como a oferta sejam o resultado do reconhecimento de que o Senhor é o dono de tudo e tudo que temos vem d’Ele, dízimo e oferta não são a mesma coisa. O dízimo requer fidelidade, compromisso, constância porque favorece a organização dos gastos e trabalhos a serem realizados. A opção é nossa, mas a Palavra de Deus é clara: não se pode servir a dois senhores. Ou usamos nossos bens para servir à sociedade consumista e egoísta, ou seja, ao Reino do Dinheiro, ou os usamos para o crescimento do Reino de Deus, que é o da partilha e da justiça.

A oferta (aquela que se faz durante a missa) não é um compromisso. Embora ajude nas diversas atividades da comunidade e seja bem-vinda, é livre. A oferta é dada livremente. Já o dízimo, não se dá nem se paga. O dízimo se devolve. Sim, o dízimo é uma devolução. É uma devolução que fazemos a Deus de uma pequena parte do que gratuitamente d’Ele recebemos.

Assim como a caminhada do cristão é feita concomitantemente em direção a si mesmo, a Deus, ao outro e ao mundo, o dízimo também aponta para essas quatro direções: para Deus, que é o real proprietário de tudo que temos; para nós, na medida em que nos educamos na partilha e renunciamos à ganância; para o próximo, que nos faz crescer no exercício da partilha e da justiça; e para o mundo, quando vivemos a prática do desapego e não nos deixamos escravizar pelas coisas materiais. Se o dizimista faz bem à comunidade, faz um bem maior a si mesmo porque através dessa caminhada em quatro direções aprende a ser gente por inteiro.

 

Zélia Viana

 

O Leigo e o Dízimo

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