O Leigo e as Falsas Notícias

2018-08-15---Blog---Texto-Zelia-capa

Sempre atento aos sinais do tempo, o Papa Francisco aborda o crescimento exagerado das falsas notícias, também conhecidas pelo nome de “Fake News”, em sua mensagem para o 52.º Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2018. Chamo a atenção para o termo crescimento porque falsas notícias, como escreve Francisco, existem desde que o mundo foi criado.

Fazendo emprego de uma linguagem fabulosa e muito comum naquela época, o autor do Gênesis narra que Adão e Eva (casal símbolo da humanidade) foram colocados num esplêndido jardim, recebendo do Criador o domínio de tudo que os rodeava, com exceção de uma única árvore (conhecida pelo nome de árvore do bem e do mal) cujo fruto, se comido ou mesmo tocado, provocaria a morte dos dois. A serpente (símbolo do mal) aproxima-se da mulher fingindo-se de amiga e interessada pelo seu bem-estar e, sedutora e sagaz, distorce tão habilmente as verdadeiras razões da proibição de Deus que Eva desconfia do amor do Pai, assume uma nova visão dos fatos, passa esse novo jeito de ver e entender para Adão, e o resultado é desastroso. Ambos comem o fruto, perdem a imortalidade do corpo e são expulsos do Paraíso.

Eu cresci ouvindo dizer que uma “meia verdade”, tanto no plano pessoal como no coletivo, é mais perigosa que uma mentira inteira porque uma mentira inteira se desmascara facilmente, porém uma mentira com pinceladas de verdade é quase imbatível. Com o progresso e o avanço tecnológico dos meios de comunicação a “lógica da serpente” encontra nas redes sociais grandes aliados para disseminar mentiras como se fossem verdades. Notícias destituídas de qualquer fundamento e outras construídas a partir de fatos verdadeiros, porém distorcidos com a clara intenção de enganar e manipular a opinião do destinatário, viraram uma febre mundial.

Como compartilhar é mais fácil que ponderar sobre a veracidade da mensagem, essas notícias – dadas sem nenhum compromisso com a verdade e na grande maioria das vezes por maldade e vingança – são capazes de gerar danos inimagináveis, como, por exemplo, fomentar desordens, criar inimizades, favorecer lucros econômicos, influenciar opiniões e decisões, despertar emoções diversas como desprezo, raiva, desesperança, construir barreiras de ódios e separações entre pessoas e povos. Quando usadas com objetivos políticos, causam mais estragos que um tsunami porque se este pode arrasar uma cidade inteira, aquelas são capazes até de destruir uma nação.

Todos reconhecem que não é fácil distinguir se uma notícia é verdadeira ou não, mas cabe a nós, leigos, o dever de checar a veracidade e a fonte dos fatos antes de passá-la adiante. E ainda que seja verdadeira, se a informação recebida não constrói comunhão, se fere a fraternidade, a conduta é a indicada por Paulo na sua carta aos efésios: “Que nenhuma palavra inconveniente saia da boca de vocês; ao contrário, se for necessário, digam boa palavra, que seja capaz de edificar e fazer o bem aos que ouvem” (Ef 4,29).

Contam que, certo dia, uma pessoa aproximou-se de Sócrates com a intenção de lhe contar algo. O sábio perguntou-lhe se o que ela ia contar já havia passado pelas três peneiras: a peneira da Verdade, da Bondade e da Necessidade. É um fato verdadeiro? Ajuda a construir a fama do próximo? Contar o fato resolve alguma coisa, ajuda a comunidade? Pode melhorar a vida no planeta? Se passou pelas três peneiras, conte. Se não passou – terminou Sócrates –, esqueça tudo e enterre o fato. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos.

Pelo que existe hoje de boatos e falsas notícias, parece que o que a nossa sociedade ávida de novidades está querendo mesmo é enterrar as peneiras. Desenterrá-las e usálas é um dos deveres intransferíveis de todos nós, leigos, discípulos missionários comprometidos com uma comunicação alicerçada na verdade e na paz e com a transformação e construção de uma sociedade pacífica, fraternal e justa.

Que Maria, que teve pressa em levar a Zacarias e Isabel a boa notícia da chegada ao mundo do Filho de Deus que trazia no seu ventre, ensine-nos e nos ajude a levar ao mundo a melhor de todas as notícias: “O Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,21).

 

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