O Leigo e a Política

2018-09-15---Blog---Texto-Zelia

 

Ainda prevalece em algumas cabeças a ideia errada de que a Igreja deve cuidar apenas das coisas do espírito e deixar a política para os políticos. Quando imagino Maria – a primeira cristã como cantamos tantas vezes, já grávida de nove meses, acompanhando José na viagem a Belém para que ele pudesse participar do recenseamento decretado pelo imperador César Augusto –, não me permito deixar de acreditar que o ser cristão passa pelo caminho do ser cidadão; que a missão de ser igreja no mundo passa pelo caminho do exercício pleno da cidadania. Convido o Papa Francisco a vir em meu auxílio, lembrando a recomendação feita a um jovem que o inquiriu sobre sua participação na política: “Temos que nos envolver na política porque ela é uma das formas mais altas de caridade”. Mas a resposta do Pontífice não terminou aí: “A Política está suja por quê?  Porque os cristãos não se envolveram nela com espírito evangélico”. Quando a Igreja fala de política – é importante não esquecer –, ela fala de uma política comprometida com a ética, a paz e a justiça, com o cuidado com todas as pessoas, principalmente as mais pobres e vulneráveis da sociedade.

Preocupam-me as pesquisas que mostram como cada dia cresce o desânimo da população com os políticos e a intenção de não votar ou anular o voto. Concordo que o atual cenário não é animador, mas participar do processo eleitoral é ainda o melhor caminho para dizer sim ao regime democrático. E se ansiamos por um Brasil diferente, mais fraterno e justo, ceder à tentação de se omitir – pelo menos assim penso – é a pior escolha que podemos fazer nesse momento em que todos os brasileiros, especialmente os mais pobres e desassistidos, precisam do nosso voto responsável, da nossa escolha alicerçada nos valores evangélicos. Equivoca-se quem julga que seu voto não pode mudar o rumo de uma eleição. Pode sim. Adolescente, eu vi isso numa eleição para deputado. Por um voto – um voto apenas – o candidato não se elegeu. No todo, tudo tem importância. Não haveria topo da escada se não houvesse um primeiro degrau, nem uma longa jornada sem um primeiro passo.

São João narra em seu evangelho (Cf, Jo 6, 1-5) que, ao ver a multidão cansada e faminta que vinha ao seu encontro porque vira os milagres que Ele fazia, Jesus não resolveu o problema de forma mágica. Para saciar a fome do povo, ele envolveu dois discípulos: Filipe e André. O primeiro dimensionou a real situação dizendo que “nem meio ano de salário daria para dar um pedaço a cada um”, e o segundo apontou um caminho: “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas o que é isso para tanta gente?” Jesus mandou que os discípulos organizassem o povo e distribuíssem os pães e peixes com os que estivessem sentados. E foi assim que aproximadamente cinco mil pessoas tiveram a fome saciada.

Neste ano eleitoral, estamos vivendo fortes momentos decisórios. Como Filipe, que fez um retrato da multidão, é fundamental que façamos uma radiografia dos candidatos e dos partidos, seus compromissos e seus projetos. Mas como julgar pertence somente a Deus, que os critérios para esse julgamento sejam não nossas simpatias e preferências pessoais, mas tão somente o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja.

Houve um tempo em que se acreditava que para ser cristão bastava ser batizado. Hoje sabemos que quem quiser ser cristão de verdade precisa estar comprometido com Deus e com os irmãos. Daí porque a escolha do candidato não pode estar presa apenas às nossas preferências de amizade ou mesmo gratidão, mas aos problemas de todo o povo, especialmente dos mais pobres, discriminados e esquecidos da sociedade.

Se – louvado seja Deus – conseguimo-nos indignar ante as políticas referentes à saúde e educação, ante a violência e a corrupção reinantes, ante os 14 milhões de desempregados, ante não somente apenas o uso mas também o comércio de armas do qual o nosso pais é um dos fabricantes e outras tantas mazelas que nos apequenam e apequenam nosso Brasil, então é sinal que está na hora de mudar e tomar posição a favor de candidatos de ficha limpa, abertos aos migrantes que fogem dos seus países em busca de um lugar ao sol, comprometidos com o bem comum e com a vida desde a concepção até seu fim natural.

Mais que aos ministros ordenados cabe a nós, leigos e leigas que somos maioria na Igreja, a missão de nos envolver com a política. Se nem todos temos vocação e coragem (oxalá muitos tivessem) para ocupar cargos eletivos, todos podemos contribuir com o voto responsável e coerente com nossa fé. O que mais desejo nesse momento é que o Laicato marque sua presença nessa eleição que se aproxima. Sozinhos, podemos muito pouco, mas, juntos, nosso pão e nosso peixe podem, com certeza, fazer a diferença no próximo dia 7 de outubro.

O Leigo e a Política

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