Espiritualidade Leiga

2018-03-15---Blog---Texto-Zelia-capa

Há quem fale em diversos tipos de espiritualidade. Entretanto, se como escreve Paulo aos efésios: “Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos” (Ef 4,5), então, há somente uma espiritualidade cristã, que é “fruto da vida no Espírito” e tem como meta a santidade: “Portanto, sede santos, assim como vosso Pai celeste é santo” (Mt 5,48). A espiritualidade cristã caminha em duas direções e tem como perfeito símbolo dessa espiritualidade a Cruz, que é formada pelas hastes horizontal e vertical. A haste vertical representa a relação com Deus na oração e nos sacramentos e a horizontal aponta para a relação com o ser humano e toda a Criação.

A espiritualidade cristã, assim como todas as vocações na Igreja, tem sua fonte no Sacramento do Batismo. Pelo batismo somos identificados com Cristo e indissoluvelmente ligados a Ele. Isso significa que somos verdadeiramente cristãos quando nos comportamos como Jesus Cristo, vivemos para os outros como Ele viveu, morremos e ressuscitamos com Ele. Pelo Batismo também somos inseridos na comunidade eclesial e passamos a fazer parte da Igreja, o Corpo Eclesial de Cristo.

Nessa grande família eclesial, fala-se muito de espiritualidade monástica, franciscana, dominicana, salesiana, etc. Na verdade, quando assim o fazemos, não estamo-nos referindo a diversos tipos de espiritualidade, mas às diferentes formas de viver a única espiritualidade cristã católica. Assim como não há duas pessoas no mundo exatamente iguais, haja vista que até os gêmeos univitelinos, por mais idênticos que sejam, possuem digitais diferentes, é mais que lógico que cada pessoa tenha o seu ‘modo’ próprio de ser. O que muda na espiritualidade não é o caminho a ser trilhado (sempre iluminado e guiado pelo Espírito Santo) nem a meta (santidade) a ser alcançada, mas o jeito de caminhar. Graças ao Espírito Santo, que sopra onde quer e como quer, longe de provocar competições ou divisões na Igreja, porém, tal qual o corpo humano, onde as partes se completam e se ajudam, essas formas diferentes de andar, isto é, de viver a espiritualidade cristã, constituem uma verdadeira riqueza na Igreja.

A Igreja, povo de Deus, é formada em sua maioria por leigos. Os dicionários dão para a palavra leigo os significados de desinformado ou ignorante sobre determinado assunto e também de alguém que, na Igreja, não recebeu o Sacramento da Ordem. Por muito tempo a ideia que se tinha de leigo era a de uma pessoa que cumpria os preceitos da Igreja, mas não se sentia parte integrante nem responsável por ela. O Concílio Vaticano II, realizado há pouco mais de 50 anos, veio para – como costumo falar – botar os pontos nos ‘is’ e os traços nos ‘tês’; para dizer que o leigo não assiste missa, mas participa da missa; não somente está na Igreja, mas é Igreja porque, pelo Batismo, participa do Corpo de Cristo. Veio para dizer que não há cristãos de primeira ou segunda categoria na Igreja; o que há é diferença de funções. Nós, leigos, não temos o modelo de vida do clero nem dos religiosos, mas nossa responsabilidade na construção do Reino de Deus não é menor que a deles.

O campo específico de nossa ação não é a sacristia, mas o mundo. Compete a nós fermentar de evangelho o mundo da família, da educação, da saúde, do trabalho, da política, enfim, o ambiente onde vivemos seja por opção nossa seja por circunstância alheias à nossa vontade. A consagração e missão de nós leigos é tão vital para a santificação do mundo que, em São Domingos, os bispos da América Latina reunidos em assembleia foram unânimes em afirmar que é impossível haver nova evangelização sem o protagonismo dos leigos.

Esse protagonismo exige equilíbrio entre fé e vida. Tanto quanto os demais segmentos da Igreja, ou nos alimentamos da oração e da Eucaristia e da vivência comunitária ou nossa espiritualidade leiga será uma espiritualidade vazia. Só seremos leigos autênticos se nossas ações refletirem uma vida iluminada e conduzida pelo Espírito que procede do Pai e do Filho.

Ser leigo na Igreja, mais que uma missão, é uma honra. Honremos, pois, nosso Batismo e vivamos, com alegria e entusiasmo nunca vistos, o Ano Nacional do Laicato.

 

Zélia Vianna

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