A Verdadeira Alegria

2019-02-14---Blog---Texto-Zelia-capa

Por muito tempo, grande número de católicos foram católicos da Paixão de Cristo, como se Jesus não houvesse ressuscitado. Antigamente tinha-se a ideia de que, para se salvar, era necessário ter uma vida de sofrimento e destituída de toda e qualquer alegria, como se ela fosse contrária a uma vida de santidade. Deus não é contra a Alegria. Ao contrário, Ele deseja com tal intensidade que a criatura humana viva alegre e feliz que faz das alegrias da vida humana um elemento de suas promessas: “Eu digo isso a vocês estas coisas para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (Jo 15,11).

O tema da Alegria perpassa toda a Sagrada Escritura. A palavra alegria aparece 244 vezes na Bíblia. Isso sem contar as vezes que aparece como verbo ou como adjetivo. Mas o conceito de alegria varia. Alguns a confundem com barulho, oba-oba, euforia. A euforia é momentânea, efêmera e motivada por coisas ou pessoas fora de nós, como, por exemplo, a comemoração de um gol, um discurso político e até uma pregação religiosa. Ela é passageira porque vem de fora para dentro e se apoia em pessoas e coisas fora de nós. Comparo-a com um copo com chopp, que tem mais espuma que bebida. Ao contrário da euforia, que é passageira e depende de motivações externas, a verdadeira alegria brota da ação de Deus em nossa vida, é duradoura e serena, sai de dentro para fora e é compatível com a dor, as dificuldades, decepções e contradições, enfim, com todas as situações e circunstâncias, mesmo as mais adversas: “Eu vos darei uma alegria que ninguém vos poderá tirar” (Jo 16,22).

 Quando Paulo escreveu a carta aos filipenses, ele estava preso em Éfeso. Não sabia qual seria seu destino. Mas, embora sem dinheiro e faminto, tendo razões humanas de sobra para se sentir triste e revoltado com os que o prenderam injustamente, ele permanece confiante e alegre: “Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito: fiquem alegres! Que a bondade de vocês seja notada por todos. O Senhor está próximo” (Fl 4,4).

A alegria não é um dom, mas um fruto do Espírito. O dom nos é dado por Deus, é inteiramente gratuito, e o Espírito dá a quem quer, sem nenhum mérito de quem quer que seja. A alegria é um fruto e, como todo fruto, precisa ser gestado, cuidado e desenvolvido dentro de nós. O dom está relacionado com aquilo que temos, e o fruto com aquilo que somos. Os dons falam daquilo que possuímos: dom de cantar, escrever, etc. Os frutos daquilo que nos tornamos: bondosos, atenciosos, prestativos, alegres.

Mais uma vez recordo o Documento de Aparecida. Somente quem faz um encontro pessoal e profundo com Cristo Ressuscitado é capaz de experimentar a verdadeira alegria, que é uma característica do Reino de Deus e é bem diferente do entusiasmo passageiro, como no caso do terreno pedregoso que recebe do Semeador a semente com alegria, mas, como não tem raiz em si mesmo, quando chega uma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, ele logo desiste (Cf. Mc 4,16-18).

Se houve uma vida marcada por uma contínua alegria, foi a de Maria. E ela a viveu nos trabalhos do dia a dia, no diálogo com José, no cuidado com o Filho, na solidariedade com os vizinhos, enfim, no cotidiano da vida. Em nenhum momento a Bíblia apresenta-a barulhenta, eufórica, nem mesmo quando recebe a visita do anjo; e em nenhum momento sugere uma Maria mergulhada na mais profunda tristeza.  Isto porque ela não se apoiava exclusivamente em coisas externas e passageiras que algumas vezes são boas, mas insuficientes para proporcionar a verdadeira alegria. Sua alegria tinha bases firmes porque procedia de sua comunhão com o Pai e de uma vida de acordo com Sua santa vontade.

 Apraz-me imaginá-la nas Bodas em Caná. Diante da situação de seu povo, afastado de Deus e carente do vinho da alegria, embora guardando em seu coração as palavras de Simeão de que uma espada de dor transpassaria sua alma, ela, corajosa e alegremente, não hesitou em provocar a antecipação da missão de Seu filho de anunciar o Reino de Deus, curar os doentes, acolher os pobres e marginalizados, formar discípulos e discípulas. Comove-me vê-la na cena da crucificação. A dor – imensa e inigualável – não a faz cair. Todos que narram a cena a descrevem de pé. A dor não conseguiu derrubar nem ofuscar a alegria de ver Seu Filho cumprir a missão que recebeu do Pai e de receber em sua vida como filhos seus aqueles e aquelas que Ele redimiu para experimentarem um dia uma Alegria que jamais terá fim.

Zélia Vianna

 

A Verdadeira Alegria

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