A Esperança Cristã

2019-01-09---Blog---Texto-Zelia-capa

 

Nestes tempos reconhecidamente difíceis que o mundo vive e dos quais o Brasil faz parte, sinto pairando no ar um clima de consciência derrotista, e um dos sinais desse negativismo é o elevado número de suicídios, muitos deles de jovens. Por isso, no alvorecer de um ano novo, que espero seja também de um tempo novo, a palavra “esperança”, a segunda virtude teológica, irmã da fé e da caridade, assume um significado especial. Se as virtudes humanas (justiça, respeito, desapego, disciplina, generosidade, etc.) facilitam e enriquecem nossa convivência com a família, com a comunidade e com o mundo, as virtudes teologais, saídas do coração do Pai e concedidas a todos os batizados, são fundamentais para nosso relacionamento com Deus e para nos orientar na maneira cristã de agir.

Em um dos seus mais belos poemas sobre o mistério da Esperança cristã, o escritor francês Charles Péguy imagina a fé, esperança, caridade como três irmãs, três mulheres ligadas por laços indissolúveis que caminham juntas pela estrada que conduz à salvação. Ele compara a Fé a uma esposa firme e reta e de fidelidade inquestionável. A Caridade (nome bíblico do Amor) é comparada a uma mãe compassiva e bondosa, sempre pronta a acolher e ajudar todos os filhos, especialmente os mais desprotegidos e necessitados.  Ao contrário da Fé e da Caridade – que alcançam sua plenitude na eternidade, mas vivem o presente –, a Esperança está ligada ao futuro e é vista pelo poeta como uma criança despreocupada, inocente e alegre.  Ainda que tudo pareça rumar em direção ao caos, ainda que tudo pareça estar desmoronando ao seu redor, ela caminha tranquila e feliz entre suas duas irmãs.

Estou convencida de que não basta que tenhamos fé. A Fé exige uma ação e essa ação tem um nome: Esperança. É a Esperança que nos segura na hora das decepções e dificuldades, que nos dá forças para resistir aos ataques e investidas do Mal e coragem para construir aquilo que pela Fé acreditamos. Sim, porque se a Fé nos dá a certeza do que vai acontecer, a Esperança é o combustível, a alavanca que impulsiona e realiza o que a Fé garante.

Naturalmente falo de uma esperança que não é espera passiva, porém paciente; que não se apoia em ingênuas seguranças, nem na inteligência nem no dinheiro; que não se baseia num otimismo natural nem se fundamenta em evidências e expectativas inconsequentes ou puramente humanas. Falo da Esperança que é dinâmica, corajosa, que não cruza os braços, mas faz e realiza. Essa esperança é uma pessoa e tem um nome: Jesus Cristo.

Não consigo falar, escrever ou meditar sobre a virtude da Esperança sem evocar a figura de Abraão, que é, para nós, o novo Israel, não somente o Pai da Fé, mas também o Pai na Esperança. Um dia, num passado bem remoto, Deus fala com o velho patriarca e lhe faz uma promessa. Promete-lhe uma terra e uma enorme posteridade. Abraão goza de estabilidade habitacional e econômica, e Deus lhe pede para sair de Ur, na Caldeia, rumo a uma terra que sequer sabe onde fica. Abraão é velho e estéril, e Deus lhe acena com uma descendência maior que as estrelas do céu e as areias do mar. É politeísta, e o Senhor lhe diz que quer ser o Deus dele, o Único. Mas Abraão crê e parte. Sai de si e de sua terra, troca a comodidade e segurança do seu oásis pelos riscos e desconfortos do deserto escaldante, levando apenas no coração a certeza de que o que lhe foi prometido será cumprido.  Foi essa certeza que alimentou sua vida, conservou-o fiel, deu-lhe ânimo para transpor obstáculos e prosseguir.

O convite feito a Abraão é feito a cada um e cada uma de nós hoje: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).  Diante das situações adversas, dos muitos conflitos e tensões políticas, sociais e econômicas que o mundo oferece, somos chamados a manter acesa a esperança numa sociedade mais humana, justa e fraterna, e, como pede o Papa Francisco, a semear o mundo com o óleo e perfume da Esperança e não com o vinagre da amargura e da desesperança.

 

A Esperança Cristã

Deixe uma resposta